Nevões Soturnos

Setembro, se bem me lembro, nevava em picos inalcançáveis. Da turba vinham sons inquietantes. Uma navalha corria pelos pingos de água azul. Tremia só de pensar que eram dádivas divinas, aquelas maçãs empoeiradas, num pedestal submerso, envolto em sombras constantes.

De repente um vértice desceu pela lâmina açucarada. Uma abolição dos sentidos causou espanto. A sala ardia.

Uma Drástica Intensidade

Corriam tempos de Verão. Uma chuva intensa escorria pelo beiral. Ouviam-se pássaros a bebericar líquidas gotas desnudadas, presas a um modelo calculado.

Perto da noite um surto de cólera efervescia num campo matemático.

Um Pretexto Volátil

Ensaguentado descia pela penumbra. De porta em porta pedia socorro. De porta em porta as cavidades salientavam-se, muito firmes, nas ombreiras iluminadas.

Houve fogo de artifício. Um jogo sem vencedor. O espectro virava a cara e as tórridas dunas avançavam.

Dias Plásticos

Aqui os dias correm, plásticos. Derretem ao longo de Gizé. Cubos termoacumuladores dispersam navegações num browser fluvial. Do rio saem pedras. Flutuam no leito mascarado de Osíris.

Filme de Cinema

Sessão aberta. Fileiras de corpos adulterados por drogas pirotécnicas. Do balaústre projectam-se verdadeiras imagens que respondem ao tacto. Nesse tacto um sentir de lava incandescente, que corrói as cortinas penduradas nas grades.

Agora somos só a tela. E dentro dos negativos uma unha em carne viva.

Golconda Disforme

Apareço despido. Nú como estrelas salpicadas num bolo. Vejo as plantas crescerem em mijo de rato nuclear. Entro pela porta e abraço o retrato da convulsão. Espasmo orgânico. As trepadeiras trituram ilustres o papel.

Anfíbio

Tenho os olhos mordidos por um anjo arquitecto. Aconteceu há muito tempo sobre impetuosas escarpas. Na grande passagem as mãos cobrem o rosto. Há sinais de desespero. Longe estão os dias de passos rápidos na praia. Longe, bem ao longe um lagarto funde-se no sol. Os seus dentes trincam as malas. E os seus olhos analisam os vincos da camisa.