O Corte Sideral

 Queria ver se voltavas de machado na mão, cortando ervas, derrubando árvores de ferro fundido.

Dissabores que trazes no braço. Pérolas cativas no solo. Mármore e vingança.

Queria que parasses no tempo e visses, do lado de fora, muito luzidia, uma roupa estendida. E quando voltasses de machado em riste, gostava que partisses o cosmos em dois.

Hoje há fado. Há lembranças adjacentes. Crises subalternas. 

Águas Territoriais

 Abruptas formas que sobejam em torno dos peixes. Formas distintas que mordem o império. Gastas arestas de maravilhas estridentes. Uma nova vida.

Malhas avultadas sem sombra, a dúvida corrente no milheiral. Contra tempo e levante. Profanação de cadáveres. 

Battle Royale

 Estou equivocado. As ferramentas de um pesadelo rasgam o véu com que me cubro. Na tinta uma gota negra retira-me a pele. Caem céus de agrafos e pregos.

Agora marcho de mãos dadas com o destino. As adagas cortam a terra limítrofe. E em toda a força quero ver as garras desmontarem as nuvens. 

Cine Volvo

 Recordo os madrigais complexos dado que a neve nunca caiu aqui. Batia-me na nuca a sensação de sublime. O alcatrão borbulhava, mastigado pelos projectores.

O Volvo passava lento. Em alerta. Uma reflexão holográfica. Um avatar multi sensores.

Teatro Sobre Faíscas

 Um café pairava sobre a mesa. Colares de pérolas vermelhas baloiçavam num telhado ramificado pelas estrias. Queria alcançar todo aquele cenário, mas estava longe de conseguir o que se pretendia.

A luminosidade ténue da tarde fazia graças e orações para além das árvores. Caía o pano. 

Na Sombra, o Velcro

Dentro de uma garrafa surgia o velcro. Um manto irreconhecível de uma textura grossa.

Por entre frestas o vidro vibrava. Ficava baço e em tons de fumo. Um rasgar de papel atravessava o ar dentro da garrafa e os vincos avolumavam-se, arrasadores de florestas.

Queria ter experimentado esse surgir libidinoso onde as grades calcavam. Surgiu-me um espanto. Calei-me na sombra. 

Estatística Mundi

Com franqueza. Há um número jogado na rua, como um recinto interditado. Probabilidades.

Num tempo longínquo, uma turba, sábia, que se manifestava, estraçalhada, impermeável.

Eu achava que o mundo girava oblíquo. Perspectivas.

Um gráfico ocultava estatísticas que denunciavam a minha mão oculta nas ervas, longas ervas onde eu não mexia, mas sabia ao que sabia o toque. Um toque indomável que amainava, afagava as flores e dormia.

Durmo eu agora sobre um socalco montanhoso. Tibete e axis mundi. Queixos caídos em picos rochosos.